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A MULHER QUE ESCREVE


PASSO A PASSO, PASSO!

Há uma semana ganhei uma placa de aço e sete parafusos no meu tornozelo esquerdo. Foi uma queda quase inexplicável... Era madrugada, eu dormia quando acordei sentindo muita dor: cãimbras intensas na batata da perna esquerda. Tentei massagear, puxar o músculo sentando-me na cama e não adiantou. A dor aumentou, eu me levantei, pensando que se estirasse o músculo a cãimbra acabaria, mas quando tentei ficar em pé, a perna esquerda não respondeu e eu cai de lado, de testa no chão. Acho que por frações de segundos perdi a consciência, pois não entendia o que estava fazendo no chão, ao lado de minha cama, com meu amor em pânico, e eu sangrando com um corte em cima da sobrancelha. Na verdade eu não dei a mínima para o sangue e o corte. A dor na perna era infernal e eu achava que tinha torcido o tornozelo. Há 3 anos, durante uma corrida, eu torci esse mesmo tornozelo e a dor era parecida. Voltei a dormir, apoiei o pé num travesseiro. Estava exausta depois de 4 dias da Feira Casar, onde eu e minhas sócias, Sonia Pedrosa e Adriana Ramos, estávamos mostrando os produtos de nossa empresa: www.eraumavezasuahistoria.com.br . Pela manhã, ao colocar o pé no chão veio a dor intensa. Depois, tudo muito rápido e lento ao mesmo tempo: o pronto socorro do hospital Oswaldo Cruz, a internação e a cirurgia. Agora, em casa, ando passo a passo, com a ajuda de um andador modelo esporte, cromado, último tipo, quatro ponto quatro. Mantenho na perna esquerda uma bota imobilizadora nas cores azul petróleo e detalhes em preto, adereços em velcro, modelo design, solado de borracha de floresta protegida. Tudo muito moderno e útil. Passo a passo descobri que todas as coisas são muito trabalhosas e que quando estamos bem, no dia a dia, não nos damos conta, e muito menos valor, para coisas como: tomar banho em pé, poder ir da sala para a cozinha carregando uma xícara de chá fumegante e mais sanduichinhos de bolacha com manteiga e queijo. Nada disso posso fazer. Tomo banho sentada e com medo de escorregar e cair... Cair é a última coisa que poderia me acontecer neste estágio da recuperação. Peço ajuda. Logo eu que estava bem acostumada a não pedir nada pra ninguém. Eu gostava de oferecer ajuda. Tentei ser solidária em todos os momentos em que pude. Mas sempre detestei pedir ajuda. Bom, lição número UM: tenho que pedir ajuda: aos meus pais, ao meu amor, aos meus amigos, a mim mesma... afinal, a partir daquele instante em que minha perna esquerda falhou e eu comecei a cair, e nesse movimento o tornozelo se torceu e se quebrou, começou aí, no instante da fratura, uma fratura bem maior e bem mais difícil de lidar. Dentro de mim algo se quebrou e não há cirurgia, nem gelo e nem pinos que possam consertar. Quebrou-se a ideia de que eu poderia ser uma pessoa invencível, que se eu me mantivesse dentro de um padrão de não prejudicar ninguém e viver minha vida em paz, eu poderia ser poupada de desastres. Mas, será que é possível viver sem prejudicar ninguém, sem magoar ninguém? Acho que não. A cada escolhas que fazemos interferimos em vidas alheias e essas vidas se misturam à nossa. Tudo vai interferindo, um fato vai puxando outro. A cada escolha. Tenho feito uma lista mental de pessoas que tenho certeza de que magoei, prejudiquei e que de alguma forma, mesmo que à distância, eu vou ter que, humildemente, pedir perdão. Numa lista paralela há as pessoas das quais guardei raiva, mágoa, decepção. A essas, mesmo que mentalmente, em forma de energia boa, eu vou ter que perdoar... Como é esse tal de perdão? Quando ele é verdadeiro e definitivo? O que sentimos quando chegamos "lá" no quesito perdão? Como vou saber se realmente perdoei e se realmente pedi perdão? Passo a passo. Bem devagar. Tenho ainda um mês e uma semana pela frente, sem sair de casa, me movimentando com o meu super andador, para passar todas as horas do dia, começando cedo, às 7hs da manhã, para pensar em perdão. Meu pé se quebrou justamente no lugarzinho onde, miticamente, existem asas... É, eu tenho ensaiado voar, tenho buscado pés alados, distanciamento de situações terrenas demais, tenho buscado sonhos e nuvens. Mas, parece que ainda não era hora. Algo me segurou, algo me puxou, me deu uma rasteira, e eu cai. Cá estou. O chão eu já conheço. Com ele sei lidar. E enquanto manco pela casa, enquanto pulo numa perna só, busco compaixão, perdão, transformação. Logo estarei fazendo fisioterapia e correndo novamente. Isso eu tenho certeza. Mas, é fato: algo se quebrou aqui dentro de mim e eu tenho que mudar... Passo a passo. 

 

 



Escrito por ANA CARDILHO às 18h02
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