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A MULHER QUE ESCREVE


SOBRE RAINHAS E PRINCESAS

Ela chegou em meados de dezembro passado. Olhar assustado, não encarava ninguém, não olhava dentro dos nossos olhos e desviava o próprio olhar; magrinha, menos de um quilo e meio; mas chegou botando banca e latindo alto, apesar da falta de tamanho. Zoe Cristina Primeira, da casa dos PintoGuedes/CardilhoFrança, parece um pequeno cachorro, da raça pintcher, mas na verdade esse é só um disfarce para uma rainha que foi perseguida e fugiu para o Brasil, mais precisamente caiu aqui em São Paulo, e mais precisamente ainda, habita esta casa de onde eu escrevo o diário da corte.

Quando Zoe Cristina Primeira chegou não esperava encontrar Lua Maria, a princesa dos olhos de mar, e sua primeira reação foi mostrar os dentes. Lua Maria, do alto de seus 14 quilos, soltou uma gargalhada e também mostrou os dentes, só que sem convencer muito bem... Zoe Cristina Primeira logo percebeu que a ferocidade de sua nova amiga não daria em quase nada. E deu em pouco. Umas rosnadas aqui e ali, um furinho sobre o nariz da rainha, que sangou bastante e assustou a todos os súditos, fazendo com que o reino inteirinho baixasse num pronto socorro veterinário altas horas da noite e depois dessa "mordida", os ânimos se acalmaram. Parece que elas fizeram um trato: como Lua Maria, a princesa menos solitária agora, havia tirado sangue da rainha Zoe, dá a impressão de que elas se entenderam em alguns termos e da data do duelo até agora, elas apenas rosnam e mostram os dentes... quase sempre em ritmo de brincadeira, de lutinha, que mais parece aula de aeróbica canina, e às vezes num tom mais perigoso mas que logo passa.

Zoe Cristina Primeira é uma rainha agitada. Ela concentra seu incrível peso de um quilo e meio sobre o dorso forte da princesa Lua Maria e morde-lhe as orelhas, o canto dos olhos verdes, chega a ficar com a cabeça inteira dentro da boca de Lua Maria, a generosa, que não lhe arranca a cabeça sabe-se Deus por amor e dedicação. Em seguida, Zoe escorrega pelo pescoço da princesa e fica com os dentes, alguns ainda de leite, cravados na papada de Lua Maria que quando se amola da brincadeira sacode o corpo da rainha em pleno ar e ele vai parar sobre a almofada ou o travesseiro mais próximo.

A rainha é dona de um apetite voraz. Ração ela come até que em pequena quantidade, de grãozinho em grãozinho, que ela rouba e leva para degustar sobre o sofá ou sobre a cama (imagine que uma rainha vai comer em pé, perto do comedouro? nem pensar.... rainhas só comem sentadas ou deitadas...). O que Zoe Cristina gosta mesmo de comer é o que não foi feito para isso: sofá, fios de qualquer natureza, rodinhas de borracha do barzinho da sala, plantas... ah, que delícia as plantas!, meias, calcinhas, roupas em geral, brinquedos de pelúcia ou de borracha, caminhas de cachorro, de qualquer tamanho e sabor, cortina de plástico de box, lombadas de livros, puxadores dos armários de cozinha, quinas de armários de madeira, sandálias de borracha, dedos das mãos ou dos pés de qualquer pessoa, bocados de edredom, pedaços de lençóis e tecos de travesseiros, além de grandes porções de madeira, debaixo da cama. Suspeita-se no reino que Zoe Cristina Primeira tenha alguma ascendência de roedores além do DNA canino.

A rainha só dorme aninhada entre um travesseirinho azul, tem que ser azul, outra cor ela não aceita, e o corpo da súdita AnaCris que não deve se mover durante a noite para não atrapalhar os sonhos reais. Na ausência da súdita, que deve trabalhar para pagar todos os mimos e cuidados necessários com a realeza da casa, Zoe Cristina então aceita jogar seu corpinho sobre uma das almofadas que ela já roeu um pedaço. Dorme sobre o jantar. Nesses momentos raros, Lua Maria, a princesa cansada de brincar e de ser mordiscada, suspira e aproveita para dormir em paz... como nos velhos tempos em que era a única sangue azul do reino das Anas e do Rafa.

Lua Maria, a princesa dos olhos de mar, neste momento dorme sobre o encosto do sofá, em frente à janela da sala, por onde entra um ventinho fresco e cheio de luz. A rainha Zoe Cristina Primeira dorme sobre a almofada amarela que ela vai terminar de comer mais tarde, como um lanchinho do lusco-fusco, e há um incrível silêncio na casa. Silêncio propício para que as histórias sejam contadas, para que o diário da corte seja atualizado. Porque assim sempre foi, desde que o mundo é mundo, enquanto a realeza dorme, nós, plebeus, temos que trabalhar...



Escrito por ANA CARDILHO às 12h11
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