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A MULHER QUE ESCREVE


UM DIA DAQUELES

Hoje é um dia daqueles, sabe? Dia que amanhece meio nublado mesmo tendo sol, dia que se arrasta e parece sem fim. Vai passar? Ah, vai sim. Mas enquanto não passa, passo eu o dia chorando por tudo e nada. Abraço um sheltie na rua e choro porque o abraço me leva ao meu sheltie que morreu, o Léozinho. Entro no carro, ouço um cd que meu amigo Gustavo Gonçalves gravou, com músicas maravilhosas dos Beatles, e caio de novo no chororô porque revejo a vitrola de plástico azul claro que havia lá em casa quando eu tinha uns 8 anos. Meu pai emprestou de um amigo uns discos dos Beatles...

o álbum branco, o azul, o vermelho, Let It Be. Preciosidades. Eu ouvia aquelas músicas mas só podia entender, decifrar, sentir a melodia. Não sabia inglês, não tinha por perto um dicionário, as palavras fugiam.

Os Beatles eram pessoas estranhas, com uma língua estranha, e eles faziam algo estranho como ganhar dinheiro cantando. Cigarras... e eu só conhecia o mundo das formigas, dos trabalhos duros que pareciam mais reais e mais lícitos que cantar, que criar.

O que devemos fazer num dia daqueles? Voltar pra casa, se enfiar na cama com as janelas fechadas? Não dá pra mim. Só a ideia e já me sinto sufocada o que pioraria, em muito, o tal do dia daqueles. Insisto em manter a normalidade. Quem sabe só a rotina salva? Mas estou arisca, desconfiada e cansada de joguinhos podres de poder, de entreguismo barato. Posso sair andando? Opa! Posso até sair voando. Sou dona do meu nariz e das minhas asas e muito pouco pode me prender a situações desconfortáveis. É que num dia daqueles a pouca sabedoria que ainda resta avisa que é melhor não tomar nenhuma decisão séria de cabeça quente, de olhos inchados, e de alma pegando fogo. "Espera passar". Espero. Por aqui passa de tudo, "passa boi, passa boiada". E vão passando: pessoas, histórias, finais já anunciados. Só não acaba o maldito dia daqueles. As horas dão ré. Quando penso que às cinco da tarde vai acabar, lá vamos nós! Começa tudo de novo. Hoje é um dia perigoso. O risco está na esquina, no farol, ao lado, atrás, chegando por telefone, telepatia, no sinal de fumaça. E eu não tenho uma borboleta no estômago, não. Tenho uma "coleção entomológica da ordem lepdoptera". Mas tudo bem, não ando armada. Fui adestrada para ser inofensiva. E agradecer. Então, senhor universo, eu agradeço. Até por este dia que é um dia daqueles e pensando bem que bom que é um dia daqueles... daqueles outros... outros seres, outras sintonias. Porque dia dos meus é bem diferente... 

(leia também: http://eraumavez-anacardilho.blogspot.com )



Escrito por ANA CARDILHO às 17h08
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