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A MULHER QUE ESCREVE


CAFÉ AMARGO E AFLIÇÃO COM MANTEIGA

O dia mal começou e há borrões por toda parte. Amanheceu e o tinteiro virou. Estava cheio, controlado. Mas, virou e agora me debato com palavras que se formaram com vida própria. Leio Haruki Murakami que fala sobre a toxidade que existe no ato de escrever. Ele é romancista e corredor e corre para livrar-se das toxinas que se acumulam em seu corpo, sua mente e sua alma enquanto e após escrever seus romances. Fiquei pensando. Talvez seja um pouco disso que sempre me trava quando começo a escrever pra valer. Primeiro vem uma sensação de euforia, um "eu posso tudo", que se parece bem com a sensação pós corrida de mais de uma hora. Deixo a esteira achando que posso tudo, sei tudo e que sou imortal. Quando termino um texto, um conto, um capítulo sinto o mesmo: euforia. Mas, em seguida tudo muda. Do mesmo modo que após um banho quente reconheço que preciso descansar, que estou exausta, depois da euforia de assinar um texto reconheço a trava chegando, a caimbra mental que se dá dentro de mim. Não tomei drogas na vida mas dizem que o processo é esse: euforia e depressão. Então correr e escrever, para mim, são como drogas. Euforia e depressão. E daí preciso correr mais e escrever mais para tentar resgatar algum bem estar. Mas, o dia parece estragado mesmo, perdido, ensimesmado. Parou de chover, tem sol lá fora e eu preferia que nem tivesse amanhecido. Talvez tenham sido os miasmas do sonho que tive... casas demolidas, de novo. No sonho revia o apartamento antigo. Ele estava muito sujo e quebrado e era devolvido para mim por falta de pagamento do comprador. Eu não o queria de volta mas ao mesmo tempo reconhecia algo de familiar em rever aquelas portas e cômodos. Checava os danos e sabia que se ficasse com o imóvel teria que começar uma grande reforma. Varria, tirava o lixo acumulado. E no fundo não queria ficar ali, não queria ser a dona dele novamente. Sonhos... detesto acordar desse tipo de sonho porque desperto confusa e demoro para entrar no eixo e me sentir "normal". Tudo tão casantivo! Inadequações. Sou a campeã nas inadequações. Ou me enquadro ou zapt... lá vêm a discórdia, o coração partido. Vou silenciar, afinal. Parece que é esse o papel que a vida me exige por enquanto, como se a toda hora ela mandasse eu ficar quieta, sem reclamações, sem mostrar nenhuma emoção, sem existir ok? Que existir é muito dolorido...



Escrito por ANA CARDILHO às 10h17
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